Monday, 04 August 08, 11:36 AM
Aproveitando o post anterior do meu amigo vidraceiro, deixo um texto de 2005 sobre o Mengo. A atuação indolente veio rápida.
Ontem eu fui ao barbeiro. Não porque queria, porque precisava. Minha barba estava enorme, pois a última vez que havia aparado tinha sido para a festa de formatura da minha irmã, mês passado, no Rio de Janeiro.
Eu odeio fazer a barba. Certa vez ouvi de uma amiga chegada aos estudos antropólogicos que, em determinadas tribos, raspar os pêlos do rosto era um dos castigos mais severos. Nunca mais esqueci dessa informação, mesmo não tendo nenhuma certeza se ela é verossímel. E sempre penso nela quando estou deitado naquelas cadeiras reclináveis, impotente diante do sorriso sádico do barbeiro que mansuseia a navalha.
Na ocasião da festa da minha irmã, eu saí todo cortado. Além dos cortes, ainda tive que ouvir a debochada frase proferida pelo simpático Miltinho, meu barbeiro desde os tempos em que andava de bate-bate no Campo de São Bento: “a sua pele é muito sensível”. Ora, além de sofrer com os golpes da sua navalha afiada, ainda passei pelo constrangimento de ter um dos estandartes da minha masculinidade sendo colocado em xeque. Talvez ele diga isso para todos, já que acredito ser impossível alguém não ter irritações cutâneas ao sentir contra o seu pescoço uma lâmina sendo passada repetidas vezes com rapidez. E que rapidez, diga-se de passagem! A minha viçosa barba, digna de ser comparada as dos companheiros de Sierra Maestra, tornou-se uma delineada barbicha aburguesada em míseros dez minutos. Não houve tempo nem mesmo para o homem que me viu crescer sentado na cadeira do salão Riba’s me perguntar como estava a vida no sul após a minha mudança. Ao terminar, a menina do caixa me cobrou, eu paguei, peguei o troco e quando olhei para trás o ágil gordinho já preparava os seus instrumentos para fazer um corte de cabelo num senhor que resmungava desde que havia chegado ao salão. Tudo rápido, rasteiro, eficiente e caro. Em outras palavras, moderno.
Por essas razões, andei contrariado ontem até a barbearia mais próxima da minha casa. No caminho pensei em desistir, ficar com o aspecto de sujo e comer um suculento churros que é vendido na praça principal da cidade. Pois é, Canela ainda tem Praça Principal com barraquinha de churros. Mas, não cedi às tentações e rumei decidido para o estabelecimento do “Seu” Lourenço. Lourenço é um senhor de muita idade, que aparenta ter saído de um conto machadiano. Ele tem todos os trejeitos de um trabalhador brasileiro, e a sua salinha com apenas uma cadeira tem todos os apetrechos que fazem daquela barbearia um dos cenários mais peculiares que já tive o prazer de conhecer. As fotos dos netos coladas no alto espelho, o rádio de pilha com suas músicas chiadas, a imagem de Nossa senhora no balcão, a gaveta de madeira que serve como caixa e o mofo no teto que nos faz ficar entretidos enquanto olhamos para cima compõem o cenário do lugar. Quando eu adentrei a sua barbearia, “Seu” Lourenço permaneceu na mesma posição, sem esboçar nenhuma reação enquanto comia algo indescretível que estava dentro de um recipiente azul. Findo o seu merecido lanche, ele esticou vagarosamente as suas mãos e apontou-me B cadeira - “Sente-se, por favor”- foram as suas únicas palvras.
E Lourenço começou a fazer o seu ofício. Limpou as mãos, preparou o creme de barbear com água quente e arrumou cuidadosamente sobre mim os panos que cobriam a minha blusa. Passou primeiramente a loção no meu rosto durante dois minutos, ao menos. Ameaçou começar a esfregar a lâmina contra o meu rosto, mas voltou, lambuzou mais uma vez aquele instrumento semelhante a um pincel no pote em que estava o creme e o passou novamente pelo meu pescoço, como se estivesse massageando. Fez isso mais umas três vezes, até que começou calmamente a passar a navalha em minha pele. Enquanto eu olhava para o mofo do teto, imaginando quantos milhtes de seres vivos havia naquele pedaço de concreto, senti subitamente pena do “Seu Loureço”. Pensei em como ele seria engolido se trabalhasse no Rio, em Porto Alegre, e em como ele deve estar perdendo clientela aqui na cidade. Afinal, eu já estava lá há uns vinte minutos e ainda ficaria pelo menos mais dez. Sendo assim, enquanto Miltinho consegue atender três clientes, “Seu” Lourenço consegue atender apenas um. Enquanto matutava sobre o a questão, olhei rapidamente para o relógio e falei baixinho para mim mesmo o quanto odiava o maldito tempo do capitalismo, que nos faz viver o tempo todo com pressa, tendo que produzir incessantemente mais, mais e mais. Neste instante, movido pela força do hábito, lembrei do combalido Flamengo. Outrora temido por todos, o clube mais querido do Brasil vem virando motivo de piada desde o início da década de noventa. Refleti sobre as causas que fazem desse clube um gigante que vem adoecendo ao mesmo tempo em que “Seu” Lourenço fazia o contorno da minha barba. E abri um largo sorriso quando concluí estar nele a resposta, estar no tempo dele. O Flamengo não joga no tempo do capitalismo. De um modo geral, os clubes cariocas vêm sofrendo desde que o futebol brasileiro se tornou mais rápido, mais dinâmico, mais moderno. Basta assistirmos a um clássico do Campeonato Carioca para notarmos como a marcação é mais frouxa, como existem mais espaço e beleza neste campeonato do que há no Gauchão ou no Paulista. O futebol do Rio é belo, mas não é competitivo. E isso é característica dos clubes, que por sua vez, mantém-se clubes tradicionais, avesso às vantagens e desvantagens da modernidade capitalista que assola o futebol mundial.
E quanto ao “Seu” Lourenço, depois de quarenta minutos, ele encerrou o seu trabalho. Cobrou-me a metade do preço que paguei no Rio e sentou-se calmamente em sua cadeira, enquanto eu saía sem um arranhão no rosto da sua barbearia.
O ladrilheiro.
Monday, 04 August 08, 04:38 AM
De uma vez por todas,
nossos problemas não começaram na abertura da janela de transferências européias. Definitivamente não. Eles datam do século XV, das Grandes Navegações, dos Descobrimentos Marítimos, da época em
que mercadores europeus cobiçavam açafrão e não atacantes de araque, e que caneleiros eram só traficantes de canela. Naquela ocasião, começava a história do país, que mais
tarde elegeria o Flamengo como principal instituição representativa de sua gente – como disse Ruy Castro: “o Flamengo não é uma nação, a nação é que é Flamengo”. Para esquadrinhar explicações
acerca do infortúnio preto e vermelho, muito mais importante do que os forasteiros que chegam hoje ao Brasil para nos saquear boleiros de meia-tigela, foram aqueles que tomaram estas terras em
1500, fundando o Brasil. O Brasil do Flamengo.
Sergio Buarque de Holanda nos mostra o caminho para o entendimento de nossas singularidades ao traçar as raízes da nação. Colonizada por Portugal, traz consigo aspectos peculiares da cultura ibérica, destacadamente o culto à personalidade. A gente brasileira herdava, dessa forma, a crença de que cada homem é filho de suas virtudes; atribuir-se-ia, por estas bandas, especial importância ao valor do indivíduo e à sua autonomia em relação aos seus semelhantes. Da autarquia do indivíduo, da exacerbada valorização da personalidade, resulta a incrível frouxidão dos laços inter-pessoais verificada até hoje, pois num lugar em que todos são barões, todos são especiais, todos são craques anárquicos, não é possível acordo coletivo, pois este implica em solidariedade e ordenação.
Outro fato determinante a ser considerado na transmissão do espírito dos povos ibéricos ao brasileiro é a indomável aversão que lhes inspira toda a moral fundada no trabalho. O trabalho exige submissão do indivíduo personalista, cujo ideal de vida é o do grande senhor: ser livre de esforço e preocupação, ser um chinelinho. O trabalho não glorifica, não aumenta sua própria dignidade, ao contrário, expõe a necessidade, mostra fraqueza, humilha. “Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante do que a luta insana pelo pão de cada dia.” Caso imperasse a moral do trabalho, haveria maior coesão social, pois as partes envolvidas estariam amarradas por interesses em comum, cada um desempenhando o seu papel e reconhecendo a importância do outro no produto final: seriam um time! A carência da moral do trabalho dificulta a organização, não atrela as pessoas às suas necessidades e tarefas, deixa o vazio para que elas se unam a partir de sentimentos, de afinidades, de amizades, de panelinhas.
Os países do Norte e sua ética protestante vêm modificando paulatinamente as feições do Brasil. Já contaminam o pensamento brasileiro. Falta ainda o coração. É onde reside o Flamengo: instituição na qual não existem coesão sólida e ética do trabalho, onde os costumes manifestam-se à margem da hierarquia organizada. O Flamengo das prostitutas e do treino leve no final da tarde... Era previsível que quando as rodadas de quarta e domingo se acumulassem, o rendimento em campo cairia e as lesões musculares se multiplicariam. Se este país fosse descoberto por piratas ingleses, o Flamengo já seria o virtual campeão e Obina – fino – o artilheiro.
Sunday, 03 August 08, 04:35 PM
Hoje às vinte e duas horas a HBO exibirá Barry Lyndon. Não conheço essa película, mas
se trata de um filme do Kubrick. Isso por si só qualifica o programa.
Não vi muitos filmes do Kubrick. Creio ter visto os clássicos. Laranja Mecânica certamente é o mais famoso. Mas confesso, não assistiria de novo. A violência gratuita de Alex, personagem principal, e sua galera é sempre comentada com entusiasmo pelos cinéfilos. Sei lá, não me empolga. Reconheço a importância da obra que marca um momento histórico, óbvio. Mas não entendo porque em qualquer conversa entre pessoas que se pretendem eruditas este filme sempre aparece como referência de cinema de qualidade.
Vi também "O Iluminado". Gostei. O Jack Nicholson mata a pau! As tomadas do garotinho andando de velotrol são assustadoras. E "trabalho sem diversão faz de Jack um bobalhão" marcou como uma frase clássica do cinema. Grande filme!
Lembro-me também de Nascido para matar. Esse eu gostei muito. O Gaiato tem belíssimas sacadas. Os momentos de tensão, os diálogos, as atuações, todos esses elementos tornam esse filme um clássico. Faz tempo que vi, mas mensagem final ecoa vivamente em minha cabeça neste domingo. Vivemos em um mundo de merda.
O ladrilheiro.
Friday, 01 August 08, 06:13 PM
Há quem diga que os homens
nasceram das lágrimas dos deuses. Certo é que os deuses renascem nas lágrimas dos homens. Carregando ou não em nosso genoma o cromossomo da fraqueza, inventamos nossa metafísica, nossos sonhos,
a partir do grande medo, do medo mais excruciante.
O moribundo desenganado almeja a eternidade de sua alma. Connor MacLeod, o guerreiro imortal de Highlander, ao contrário, não aspirava o paraíso após séculos e séculos de malte envelhecido na velha Escócia: o fantasma da morte não o assombrava; queria sim a finitude – talvez uma cirrose hepática fosse seu grande desejo. Já na testa de Roman Abramovich não brota uma ruga por conta dos números da mega-sena ou do reajuste de preço do presunto. E logo após a conquista do Brasileirão de 92, os rubro-negros não sonhavam com o hexa. Queriam-no, obviamente, mas não sonhavam, não derramavam lágrimas de desesperança em noites de trevas. Dezesseis anos de angústia e o plausível se tornou intangível, onírico. Hoje, não existe rubro-negro na fase R.E.M. do sono que não tenha as pálpebras buliçosas enquanto fantasia Fábio Luciano erguer o troféu em meio à multidão ensandecida.
Quero dar um testemunho: nas duas últimas noites sonhei com Vandinho. Não sei que cara ele tem – se parece um prego ou sabonete –, mas isso não foi problema para minha rede neural. Que grande artilheiro! Cabeça na bola, queixo no peito, nove nas costas...
É no pior dos mundos, no pranto incontido dos aflitos que revela-se a percepção do abismo entre o querer e o ter, entre o triunfo e o pênalti chutado duas vezes nas mãos do Sérgio. Mais do que isso: o choro é o mecanismo de defesa contra o sonho. Ele é o chumbo em nossos sapatos, o air-bag do veículo desgovernado, ele é o copo de mocotó de quem cisma com o Santo Graal. Quando vejo a pequena Jade Barbosa apavorada em sua chegada a Pequim, sei que muito mais do que cambalhotas e piruetas, o seu sistema límbico foi amoldado na Gávea. Quanto sofrimento cabe naquela garotinha? Naquela flamenguinha. Os Jogos Olímpicos, este tributo aos deuses, devem consumi-la em obsessão. É o nosso hexa, só que de quatro em quatro anos.
Thursday, 31 July 08, 09:26 PM
Quando sento em frente à televisão para assistir jogos como o último Flamengo X Palmeiras sou logo tomado por um estranho mal-estar. Não entendo porque me submeto à tortura. Imediatamente me ocorre uma questão nietzscheana: por que gostamos da tragédia?
Se vivo estivesse, creio que o filósofo alemão supracitado se interessaria pelo football. Um homem que passou a vida buscando esclarecer que a dor, ao contrário do caráter negativo que a sociedade ocidental lhe confere, constitui-se como elemento fundador da existência humana, no mínimo seria capaz de entender a embriaguez que nos move consentidamente ao sofrimento.
Nietzsche me conforta quando dirijo-me ao tormento Flamengo. Djavan, compositor rubro-negro negligenciado pela massa Flamenga, já tivera esse insight ao escrever que “algo lhe diz em rubro-negro que o sofrimento leva além”. Pois é senhores, depois de anos de desilusões, a maturidade nos impele a recorrer à filosofia como forma de suportar Jaílton, Tardelli, Léo Moura...
Para piorar, além dos lambões de sempre, o nosso comandante Caio Junior resolveu complicar. Não basta padecermos da ausência de jogadores que antes eram titulares, ainda temos agora que enfrentar a implicância do topetudo com o mito Obina. Admito, não sou daqueles que pedem Obina na seleção. Mas nem por isso acho que o Anjo Negro seja apenas um botinudo carismático. Obina hoje é um dos poucos avantes que jogam no Brasil capaz de reunir os requisitos básicos de um camisa 9: chute forte, porte físico e sorte. Se além disso, fosse ele um jogador técnico, com bom preparo, estaria no futebol inglês, não no combalido brasileirão. Washington, Marcel, Aloísio, Alex Mineiro, são o pouco que sobrou em solo brasileiro. E Obina não deve nada a esses jogadores. Se o Flamengo não atentar rapidamente para utilidade do bom baiano, corremos o risco de perder um ídolo para algum país bizarro do Oriente.
Ademais, Obina carrega consigo outras características que elevam ele a condição de ídolo histórico do Flamengo. Olhemos para o Kaká. Jogador bonito, com uma trajetória impecável, virgem até o casamento, poliglota, ou seja, a representação fiel da arte apolínea. Um típico jogador do São Paulo; a antítese do Obina. Porém, a existência rubro-negra, como já dito acima, está submetida aos desígnios de Dionísio, ao exercício da dor. Em hipótese alguma Nietzsche seria sãopaulino. Não apenas pela homenagem cristã que o clube ostenta em seu nome, mas porque ele repudiaria o virtuosismo socrático que a instituição faz questão de representar. A racionalidade tricolor que engendra o otimismo da eficiência causaria arrepios no filósofo. O Flamengo, na figura do Obina, apresenta-se como o contrário do modelo paulista. Os fãs de Kaká exaltam o belo, os admiradores de Obina o instinto. Mais do que um jogador, Obina afirma a identidade Flamenga. Mais do que um camisa 9, temos no ataque do Flamengo a representação da tragédia contemporânea através do pés tortos de Obina.
Portanto Caio, mais respeito com o nosso “Wagner”!
O ladrilheiro.
Wednesday, 30 July 08, 12:21 AM
"Nós, da crônica,
metemos o pau nos dirigentes do futebol brasileiro. Mas cabe a pergunta singela e provocante: e quem mete o pau na crônica? É certo que os dirigentes são, via de regra, ineptos, incapazes. Tão
ineptos e tão incapazes que ainda não perceberam que a maioria dos meus colegas está muito aquém do craque e muito abaixo do torcedor.
Eis a verdade que precisa ser aberta, de par em par: - só dois sujeitos se salvam no futebol brasileiro. Ei-los: - o craque e o torcedor. Por que somos nós bicampeões do mundo? Por que ganhamos na Suécia e porque ganhamos no Chile? Porque temos o melhor futebol e a melhor torcida. Ainda não apareceu o talento do brasileiro da arquibancada. Mas não haveria Pelé, nem haveria Mane, se a multidão não os promovesse e, repito, se a multidão não os consagrasse.
Vejam como a torcida sempre se antecipa à crônica. Não é a imprensa, o rádio ou a televisão que cria e recria os mitos do futebol. Eles, os mitos, são gerados no ventre numeroso, úmido e cálido da torcida. Cabe assim, ao homem da arquibancada, uma função profética. Com sua limpidez de vidência, ele tem antecipações fulgurantes. Sim, o torcedor chega antes à essência dos clássicos e das peladas. Ao passo que vários colegas meus se nutrem de equívocos e iniqüidades.
O caso presente de Silva não me deixa mentir. Hoje qualquer paralelepípedo de Boca do Mato ou qualquer cabra vadia de Lins de Vasconcelos sabe que Silva é um craque. No jogo Flamengo X Vasco, ele explodiu, simplesmente explodiu. E passou a ser, e só então, um fato de manchete, de primeira página, de oito colunas. Mas como o marido da ópera bufa, a crônica foi a última a saber.
E há, ainda, os que duvidam e, mesmo, os que negam. Mas os mitos, volto a dizer, nascem nas arquibancadas, nas esquinas e nos botecos. O crioulo ainda não estreara, e já a torcida sonhava com seu futebol. Eis a verdade que os idiotas da objetividade ainda não descobriram: - a multidão rubro-negra tem espasmos, arrancos mediúnicos. Silva ainda não dera a sua primeira botinada e já a massa flamenga profetizava o craque integral.
Dei a entender que a multidão é sempre médium vidente. Mas ela possui ainda outros dons abundantíssimos. Por exemplo, sabe admirar e gosta de admirar. Ao passo que, na maioria dos casos, o cronista é um impotente da admiração. É como compreender sem admirar. Só tarde, muito tarde, é que descobrimos Silva.
Mas justiça se lhe faça: - foi o povo que criou o mito e o impôs à crônica. Digo “mito”, porque ninguém é grande, em futebol, sem a dimensão mitológica. E nós temos por Silva o que eu chamaria de “admiração induzida” (induzida pelo simples e luminoso homem de arquibancada).
Claro que não estou nivelando todos os colegas. Há os que são lúcidos, sensíveis, como Mario Filho, João Saldanha, Fernando Horácio, Aquiles Chirol e poucos mais. Esses vêem o futebol brasileiro através de uma ótica monumental, homérica.
É essa também a visão da torcida. Peguem um crioulão qualquer da massa rubro-negra. Sua fala cálida e larga como um canto. Ele nunca terá do Flamengo uma imagem liliputiana. Não. Aos seus olhos, um Silva é uma gigantesca figura de Michelangelo."
On