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Wednesday, 18 June 08, 05:49 PM

    Minha idéia de violência sempre foi a que a maioria tem sobre ela: desnecessária, perturbadora, imbecil, idiota, sem sentido, deprimente. Mesmo tendo consciência de que o ato violento é inerente ao ser humano

    Quando comecei a ler Entre os vândalos, não tinha a menor noção da intenção do jornalista Bill Buford. O que ele buscava afinal? Como conviver com racistas, facistas, neo-nazistas, nacionalistas e toda espécie de istas como se fosse um deles, mesmo deixando claro que não era, não foi e nunca seria?

    Buford descreve a chegada dos "torcedores" do Manchester United a Turim para o jogo contra a Juventus de dentro do ônibus que fora designado a levá-los do aeroporto até a piazza San Carlo: xingavam os italianos que estavam nas ruas, atiraram latas de cerveja, mijaram e cuspiram. O nacionalismo exarcebado ao som de "Rule Britannia".*  

   Agora, se coloque no lugar dos italianos. Você está em sua cidade, caminhando pela rua em direção ao trabalho, ou indo pra casa, ou passeando, seja lá o que for e de repente ônibus carregados de elementos mal educados e violentos, aparecem para te atacar.

    O que você faria? Qual seria o seu sentimento em relação à pessoas assim?

    Buford ficou indignado, mas a pesquisa falou mais alto e se manteve absolutamente observador no meio dos hoolingans que invadiram Turim naquela tarde.

    Também esteve com os neo-nazistas do National Front, partido ultra direitista racista, facista e todos os istas possíveis para poder entender o que é a violência das multidões no futebol inglês e porque o partido buscava militantes na torcidas inglesas.

    Torcedores do Manchester, West Ham, Chelsea. As lutas nas ruas, nos trens. Os códigos, os limites e não limites.

    Há ocasiões em que você sente pena dos hooligans, mas há ocasiões em que, como brasileiro e conhecedor da violência, se pega perguntando: Pensa em caras assim querendo causar por aqui na Copa de 2014? Seriam as organizadas capazes de se unir para fazer valer a lei do respeito? E se você estiver andando em direção ao estádio em dia de jogo entre Inglaterra e Holanda (por exemplo) e o pau começar a rachar entre hooligans ingleses e holandeses? (sim, dizem que existem!)

    Misto de sentimentos, é o que o livro proporciona. E proporciona um pouco de leitura de si próprio. De busca pelo conhecimento de seus instintos. Você sozinho é alguma coisa? E quando faz parte de uma multidão? Não é a multidão? Não é o poder? Não é a sensação de pertencer a algo grande e poderoso e portanto modificador de alguma coisa?

   Ingleses são geneticamente guerreiros. Sua história é de guerras, conquistas e isso os faz sentir fortes. Esta me parece a explicação mais razoável para a violência dos hooligans ingleses.

   Trecho do livro na batalha de rua em Sardenha: "...E agora aquela manifestação pela Inglaterra. Era uma idéia extremamente simples, mas atroz: esses idiotas, desprezados em casa, ridicularizados na imprensa, incapazes de serem refreados por qualquer legislação impulsiva engedrada pelo governo, queriam uma Inglaterra para defender. Não queriam a Europa; não compreendiam a Europa nem queriam compreender. Eles queriam uma guerra. Queriam uma nação à qual pertencer e pela qual lutar, ainda que a luta fosse aquela peça absurda de teatro de rua com a polícia italiana local." 

   Livro interessante e obrigatório. Recomendo!

   *Rule, Britannia! Britannia, rule the waves!/Britons never, never, never shall be slaves!/ When Britannia first, at Heaven'n command, /Arose from out the azure main,/When Britannia first arose from out the azure main,/This was the charter, the charter of the land,/ And heavenly angels sung the strain:/ Rule Britannia! Britannia, rule the waves!/Britons never, never, never shall be slaves!/ Rule Britannia! Britannia, rule the waves!/ Britons never, never, never shall be slaves!

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Posted by Lucastro | Comments (0)