Tuesday, 17 July 07, 07:56 PM
A Argentina amarelou. Eles têm medo do Brasil. As análises da vitória brasileira no domingo, em sua maior parte, são variações destas duas afirmações. São percepções simplórias e, pior que isso, falsas. Se a final da Copa América provou alguma coisa, foi que a Brasil soube absorver o melhor da escola européia ao seu futebol e que a Argentina (pelo menos a seleção) parou no tempo.
Primeiro vamos desmistificar o suposto "medo" que os hermanos têm de nós. Não há razão alguma para isso. Em que pese a hegemonia brasileira nos últimos confrontos, o retrospecto ainda é bastante equilibrado (36 a 34 para nós, se não me engano). Brasileiros e argentinos jogam juntos o tempo todo, seja pelas competições sul-americanas, seja nos campeonatos e nas copas européias. Ambos se conhecem muito bem para terem medo um do outro. Há o respeito mútuo, óbvio, mas isso é completamente diferente.
Recentemente tive a oportunidade de assistir ao famigerado Brasil e Itália pela Copa de 1982. Esse jogo guarda grandes semelhanças com a final de domingo. Os saudosistas dizem que se aquele Brasil enfrentasse aquela Itália 20 vezes, ganharia 19. Com todo respeito, discordo. Se aquelas equipes se enfrentassem 20 vezes, o Brasil, jogando daquela forma, perderia pelo menos 15. Assim como a atual Argentina vem perdendo quase sempre para nós.
O Brasil-82 tocava muito a bola. Só que grande parte desses passes era de lado e na defesa. A estratégia só era possível porque todos os adversários daquela Copa, inclusive a Itália, não marcavam a saída de bola. A diferença é que, quando os brasileiros chegavam no campo italiano, enfrentavam uma marcação ferrenha, o que tornava o jogo de passes brasileiro quase impossível. A Itália roubava a bola e partia em velozes contra-ataques. Isso aconteceu o jogo todo e foi um tormento para os zagueiros brasileiros.
Vale lembrar que o Brasil jogava pelo empate e, mesmo assim, optou por manter-se fiel ao seu estilo de jogo por um suposto "respeito ao jogo bonito". Mentira. o Brasil jogou daquele jeito porque era a única forma que sabia jogar. o problema é que essa abordagem era ineficaz para o jogo contra os italianos, como ficou provado. Uma pena. O fato de Telê Santana ter sido várias vezes campeão com o pragmático São Paulo dos anos 1990 só mostra que ele, como grande treinador, soube aprender com seus erros.
A Argentina-07 padeceu dos mesmos males que o Brasil-82. A diferença é que o Brasil-82, por ter vários jogadores fora-de-série, conseguiu ainda vender caro a derrota para a Itália. Já a Argentina, apenas um pouco tecnicamente superior ao Brasil, foi massacrada. O esquema de tocar, tocar e tocar a bola até cansar o adversário foi eficiente contra adversários tão fracos que até do contra-ataque abdicavam. O México, superior às outras equipes, perdeu por um 3 a 0 que de forma alguma representou o que foi o jogo.
Na final, a Argentina achou que poderia vencer usando contra o Brasil o mesmo esquema que usara para enfrentar, por exemplo, o Peru. O Brasil (e aí está o mérito da comissão técnica) sabia disso e preparou-se para tal. Com dois volantes de excelente marcação (Josué e Mineiro) e dois meias que sabem marcar e apoiar (Elano, depois Daniel Alves, e Julio Batista), o Brasil sufocou as trocas de passes dos argentinos. Mesmo o único atacante de fato brasileiro, Vágner Love, fez um trabalho admirável de marcação. Recuperada a bola, o Brasil não perdia tempo com passes laterais no meio campo. A bola era tocada rapidamente aos alas, que exploraram muito bem a fragilidade das laterais da defesa argentina. Saíram três gols e poderia ter sido até mais.
Depois de seguidas derrotas para os europeus em Copas do Mundo, o Brasil aprendeu que, com a evolução tática e física do esporte, não era mais possível vencer valendo-se da mesma estratégia que funcionara até 1970. Adaptou-se à nova realidade e, com a superioridade técnica de seus jogadores, voltou a ser a maior potência do futebol mundial. A Argentina, que não ganha nada há 14 anos, precisa aprender a fazer o mesmo.
Thursday, 12 July 07, 01:07 PM
O futebol é pródigo em acontecimentos inusitados. Em junho de 1997, o lateral-direito Zé Carlos disputava a segunda divisão do Campeonato Paulista pela Matonense. Um ano depois, era titular numa
semifinal de Copa do Mundo. Poucas histórias, no entanto, são tão inusitadas quanto a do zagueiro holandês Harvey Esajas.
Nascido em 1974 em Amsterdã, capital da Holanda, Esajas, de ascendência surinamesa, começou sua carreira na famosa academia do Ajax. Lá ele conheceu Clarence Seedorf, de quem se tornaria grande
amigo. Após breve passagem pelo Anderlecht, Esajas voltou à sua terra natal em 1993 para assinar seu primeiro contrato profissional, com o Feyenoord, arqui-rival do Ajax. Esajas não teve vida fácil
em Roterdã. Desde o começo, sofreu pressão de parte da torcida por seu passado nos "joden" ("judeus" como são conhecidos o Ajax e seus torcedores). Para piorar, durante um jogo de pré-temporada,
Esajas fraturou a mandíbula de Ronald Schouten, do Helderse Selectie.
Apesar de todos os problemas, a estréia oficial de Esajas pelo Feyenoord não poderia ter sido melhor. Ele marcou um gol no clássico contra o Ájax. Mas a torcida continuou pegando em seu pé. Sem
convencer o treinador, o zagueiro jogou só cinco partidas durante a temporada. No ano seguinte, apenas três. Na temporada 1995/1996, Esajas sequer entrou em campo.
Ele deixou o Feyenoord ao final da temporada e assinou com o Groningen, onde jogou nove partidas. Nas temporadas seguintes, o zagueiro passou pelo Cambuur Leeuwarden (nenhum jogo) e Dordrecht'90
(sete jogos).
Depois de tantos fracassos, Esajas decidiu tentar a sorte fora da Holanda. Ele fez testes na Fiorentina e no Torino, mas não foi aprovado. Na Espanha, o zagueiro teve breves passagens pelo Real
Madrid Castilla (antigo Real Madrid B), Zamora CF e CD Móstoles, onde também não obteve sucesso. Em meados de 2001, Esajas decidiu encerrar a carreira e começou a trabalhar em um circo.
A vida dele no futebol começou a mudar em março de 2004. Em uma visita ao amigo Seedorf, Esajas, então com mais de 100 Kg, disse que queria voltar a jogar. Seedorf procurou seu treinador no AC
Milan, Carlo Ancelotti, e disse (de brincadeira) que existia a possibilidade dele contratar um zagueiro de graça. Sem nada a perder, Ancelotti permitiu que Esajas treinasse Milanello por algum
tempo. Em três meses, Esajas perdeu 15 quilos.
A história tomou contornos surreais um mês depois. Com poucos defensores no elenco, o Milan ofereceu contrato de um ano para Esajas. O zagueiro, que em toda a sua carreira só havia fracassado nos
lugares onde passara, e que há três anos não jogava profissionalmente, acabava de assinar com um dos maiores clubes do mundo! “Eu quase caí da cadeira quando soube que o Milan queria me contratar”,
confessou mais tarde.
Na temporada 2004/2005, Esajas foi a última opção do elenco. Mesmo assim, como prêmio por seu esforço, Ancelotti colocou-o em campo aos 42 minutos do segundo tempo contra o Palermo, em partida
válida pela Coppa Italia. Nos acréscimos, Esajas deixou o atacante Jon Dahl Tomasson cara a cara com o goleiro, mas o dinamarquês cabeceou por cima do gol. O zagueiro também fez parte do elenco do
Milan que disputou a final da Liga dos Campeões contra o Liverpool. Esajas teria sido campeão europeu se o Milan não tivesse levado uma das viradas mais impensáveis da história do futebol (de 3 a 0
para 3 a 3 e derrota nos pênaltis).
Ao final da temporada, Esajas deixou o Milan para assinar com o Legnano, da Serie C1 (terceira divisão). Ele ainda jogou pelo Lecco, antes de encerrar a carreira, pela segunda vez, em junho de
2006.
Questionado a resumir sua tragetória em uma frase, Esajas respondeu: “A incrível história de um homem que tornou possível o impossível”.
Wednesday, 11 July 07, 03:44 PM
Todo verão europeu é a mesma história: especulações e mais especulações de transferências milionárias. Neste ano não é diferente. De todas as estrelas, Kaká e Cristiano Ronaldo parecem ser as mais cobiçadas. E se depender da legislação trabalhista, os clubes espanhóis largam na frente de seus congêneres.
Estudo divulgado recentemente pela consultoria Ernst & Young Advogados revela que a Espanha é o país com os menores custos fiscais para futebolistas. Além da terra de Cervantes, foram avaliados Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Holanda.
O levantamento mostra que, para um clube espanhol pagar 2 milhões de euros por ano a um jogador, ele precisa desembolsar, entre salários, Imposto de Renda, seguridade social etc 2,680 milhões de euros, enquanto um time francês, onde os custos são os mais altos, deve desembolsar quase o dobro: 5,4 milhões de euros. Na Itália, a cifra chega a 4 milhões de euros.
A legislação espanhola (apelidada de "Lei Beckham") vale para todos os estrangeiros que pretendam trabalhar no país. Para ser beneficiado, o trabalhador não pode ter sido residente fiscal na Espanha nos últimos dez anos, deve morar dentro das fronteiras espanholas e trabalhar em benefício de uma empresa local.
Dessa forma, Ronaldinho e companhia são tributados como "não-residentes", pagando taxa de 24% sobre seus rendimentos. Além disso, estão isentos de imposto sobre pagamentos efetuados por empresas estrangeiras. Por exemplo, se o Robinho receber 1 milhão de reais para fazer uma campanha publicitária para o Pão de Açúcar, ele não pagará 1 centavo de imposto. Para efeito de comparação, os residentes pagam 43% de imposto sobre quaisquer rendimentos. O benefício, que está em vigor desde 2004, vale por até seis anos e deve ser solicitado nos seis primeiros meses de residência
O Barça já assinou com Henry, o Real Madrid flerta com Kaká e muitos outros craques devem desembarcar em portos espanhóis neste verão. Certamente, paellas e touradas não são os únicos incentivos.
Tuesday, 10 July 07, 06:51 PM
Os times brasileiros são compostos por três tipos de jogadores: os jovens talentosos, que cada vez mais cedo vão para a europa; os veteranos que retornam do velho continente e os intermediários, que ficam no país ou por falta de mercado ou por que não tem um empresário bom o suficiente para arrumar um clube para eles na Estônia ou na Arábia Saudita.
Não adianta se iludir: todo jogador brasileiro quer sair para jogar no exterior. O jovem que entra no dente-de-leite de um time pequeno não sonha em fazer carreira em times como São Paulo, Flamengo e Grêmio. Os grandes clubes nacionais são apenas ponte para Milan, Manchester United, Bayern Munich e outros menos glamurosos. Infelizmente, esta é a dura realidade.
Este panorama, no entanto, não exime os jogadores de terem respeito pelo clube e principalmente pela torcida. O caso do atacante Alexandre Pato, o Internacional, é didático para demonstrar como o futebol brasileiro virou a "Casa da Mãe Joana".
Há cerca de uma semana, o jornal Folha de S.Paulo noticiou que o apelido de Pato (atualmente com a Seleção sub-20 no Canadá) no MSN é "Stamford Bridge". Este é o nome do estádio do milionário clube inglês Chelsea FC. Mera brincadeira? Indicação de seu provável destino? Pode até ser. Mas será que a relação do jogador com seu clube deve ser assim tão, digamos, promíscua?
Pato veio das categorias de base do Inter. O clube investiu muito dinheiro nele quando ele era apenas um dos muitos jovens que tentam a sorte no futebol. Deu certo, e hoje ele é a principal estrela do time e ídolo da torcida. Pato deve muitos mais ao Inter do que o Inter deve a ele. O atacante ainda não completou uma temporada inteira pelo clube. Pato não estava na conquista da Libertadores e, no Mundial, sua colaboração, tirando o gol contra o fraco Al-Ahly, foi nula. Isso não é uma crítica, já que pouco se pode exigir de um jogador tão jovem. É apenas uma constatação.
Posto tudo isso, acho que o apelido de Pato no MSN é desrespeitoso. Ele ainda é jogador do Inter. É o Inter que paga seu salário. É a torcida do Inter que grita seu nome do Beira-Rio. O apelido de Pato mostra que ele já está com a cabeça em outro lugar. Mesmo que ele já esteja negociado, ele ainda é jogador do time gaúcho e deve se comportar como tal. E se a negociação não der certo? Qual será o apelido de Pato no MSN? "Beira-Rio Por Enquanto"?. "Beira-Rio Infelizmente"?.
Todo jogador tem o direito de sonhar com a fama e os euros que só a europa proporciona. Isso não o exime, entretanto, de demonstrar respeito pela instituição que defende e, principalmente, por seus torcedores.
PS: Não sou Colorado.