Wednesday, 27 February 08, 12:06 PM · Comments(0)
Por Victor Uchôa, de Rabat/Marrocos, em 16.02.2008
O campo de terra batida está encravado na Cordilheira do Atlas, cadeia de montanhas que se ergue bem no meio do Marrocos e divide o país entre Costa Atlântica e Deserto do Saara. Barreiras de pedra definem os limites laterais. As linhas de fundo são estabelecidas por quatro pedras maiores, duas de cada lado, que ao mesmo tempo determinam a medida da “trave”.
Naquele terreno, à uma temperatura aproximada de 12º e com um vento que diminuía em muito a sensação térmica, meninos jogam futebol sem dar importância ao frio ou às regras do jogo. Onde está a bola, estão quase todos, numa disputa febril pelo objeto desejado. Até que um baixinho de camisa vermelha, mais lúcido, domina o balão de borracha pela direita e parte na diagonal em direção ao gol adversário. Dois defensores param em sua frente e ele empurra a pelota pra esquerda. O companheiro de amarelo mata e devolve em dois toques. Baixinho só precisa encostar o pé pra que a bola ultrapasse as duas pedras e ele corra pra comemorar com os amigos.
Assisto a cena do alto de uma colina, fotografando tudo. É quando um marroquino passa por mim sorrindo e conclui o lance: “Il est très bon. Fantastique”.
Com aquela frase na cabeça, guardo a câmera e sigo me movendo no mundo, rumo ao Saara. No caminho, fecho os olhos e lembro.
Lembro de ver cafés e restaurantes lotados nas ruas de Marrakech. Atenções voltadas para a Copa Africana de Nações 2008, vencida pelo Egito. Mesmo com sua seleção sendo eliminada na primeira fase, os marroquinos acompanharam o torneio até a final, como se ainda disputassem o título. Prova de que o que vale mesmo é a ilusão do jogo, sem tanto crédito para a vitória ou para a derrota.
Também em Marrakech, conheci um vendedor de sucos chamado Simon. Em três dias, o jovem aparece com três camisas diferentes do Barcelona. Curioso, quer saber se os clientes brasileiros são jogadores profissionais. Para ver sua reação, inventamos que um de nós é um jogador em férias. Simon quer fotos ao lado do “craque”. De aparência humilde, surpreende ao sacar um celular de última geração e mostrar um vídeo onde Ronaldinho Gaúcho só falta fazer chover no deserto. As imagens, diz Simon, são preciosas.
Andar nas ruas de cidades marroquinas como Marrakech e Fès significa ser questionado a todo momento sobre sua origem. Os vendedores, artesãos ou encantadores de cobras querem sempre saber de onde chega o viajante. Se ouvem “Brasil” como resposta, é uma festa: “Ronaldo! Ronaldinho! Kaká!”. Todos, sem exceção, querem jogar com os brasileiros. Melhor. Eles querem brincar com a bola como brincam os brasileiros. Afinal, é do Brasil que sai boa parte dos poucos exemplos ainda existentes de jogadores que jogam pelo prazer de jogar, e não pela lógica numérica. São aqueles que mandam às favas os padrões estatísticos e deixam florescer a liberdade criadora, o improviso dos que atuam pela alegria de dar alegria.
Quando abro os olhos já estou em Mhamid, às portas do Saara, quase na fronteira com a Argélia. No deserto, passo alguns dias com Berberes, os nômades daquele território. Atualmente, devido à falta de água, muitos estão agrupados em vilas, em constante contato com o resto do mundo. Entre eles está Rhamon, que diz amar três coisas: o deserto, os camelos e futebol. Enquanto caminhamos pela areia fofa e ele acaricia seu camelo, Rhamon me deixa assombrado ao fazer algo que eu não conseguiria: sem titubear um só instante, escala toda a Seleção Brasileira que enfrentou o Marrocos na fase de grupos da Copa do Mundo de 1998. Numerando a camisa de cada jogador, ele vai de Taffarel a Ronaldo.
Voltando do Deserto, em Mhamid, encontro algumas crianças jogando bola num campo de areia, onde a barra horizontal das traves dá lugar a uma corda. Começo a fotografar e muitos não gostam. Digo que sou do Brasil e tudo muda. Cada um dá o melhor de si em campo. Eles não têm calçados e, infelizmente, também não têm muitos dentes. Todos estão bastante sujos, e não por causa do jogo. Reparo que só um time tem uniforme. Descubro que o “árbitro” fala inglês e questiono sobre a falta de camisas para os demais. “Não tinha dinheiro pra comprar tantas camisas. Mas isso pouco importa, o que importa é que eles joguem e se divirtam”, diz Ahmed.
As crianças do deserto marroquino convidam-me para brincar com elas. Não posso. O ônibus que me moverá de volta ao mundo “civilizado” já vai partir. Mas antes, tenho tempo de ver um menino de cabeça raspada disputar no alto uma bola rifada por um companheiro. Na sobra, ganha na corrida do defensor e antes que o goleiro se dê conta, toca pro gol e sai fazendo festa. Então, aquela criança que nasceu no Saara e que tinha sido um dos mais contrários às minhas fotos, vira pra mim, sorri seu sorriso vazio porém cheio de vida e fala em Árabe algo que eu só posso decifrar como: “Brasil, essa foi pra você!”.
Très Bon. Fantastique!