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Friday, 18 April 08, 03:51 PM

  

Por Victor Uchôa, de Londres/Inglaterra, em 15.04.2008

O dia é domingo, 13 de abril. Há quase um mês o inverno europeu foi embora, mas não avisaram aos deuses ingleses. Chove e faz frio. A manhã já se mostra há algum tempo e Liverpool ainda não despertou. Movimentação somente no Albert Dock, em frente ao museu dos Beatles, que moveram o mundo da música como talvez ninguém volte a mover, e gente de toda parte do mundo se move até Liverpool para ver o legado daqueles quatro rapazes.

Até que um grupo bem heterogêneo começa a juntar-se num café ao lado do museu. Adultos conduzem pequenas crianças. Os jovens têm olhar altivo. Mulheres circulam à vontade. Alguns são bastante velhos, outros um tanto quanto tímidos. Todos cantam. Trajando vermelho, cantam que nunca vão deixar o seu amor caminhar sozinho. Cantam para o Liverpool Football Club

A manhã do domingo corre a passos largos e as ruas de Liverpool ganham vida. Vida vermelha. De todas as direções surgem pessoas que andam pelo centro da cidade esperando o momento de partir para o Anfield Stadium, onde os Reds enfrentariam o Blackburn num jogo sem grande valia. Pelo comportamento dos torcedores, parecia valer o título. A loja oficial do clube está lotada. Crianças perdem-se em meio à camisas feitas especialmente para elas, bichos de pelúcia, chaveiros e quebra-cabeças com imagens dos ídolos. Um pai espera que os dois filhos, um de cinco e um de três anos, escolham o que querem levar. Questionado se torcer pelo Liverpool foi iniciativa dos pequenos ou teve sua influência, responde com outra pergunta: "Tive alguma participação, sim, mas seja sincero, jovem, há algum outro time melhor pra se torcer no mundo?".

Este é também o pensamento dos amigos Yan e Mardi, um japonês e o outro indiano. Moradores de Londres, reservam os finais de semana para acompanhar o Liverpool em qualquer cidade da Inglaterra. Não seria mais fácil torcer por uma equipe londrina? "Até que sim, mas nenhum time de Londres tem Gerrard, que joga com paixão, e nenhuma torcida ama seu time como essa", rebate o sorridente Mardi.

A 50 quilômetros dali, o que move o mundo de Manchester são as indústrias e as universidades. E naquele domingo, o futebol. O Manchester United, líder do campeonato mais rico do mundo, recebe o Arsenal, que então alimentava esperanças de ser campeão. Esquema especial de segurança nos arredores do estádio Old Trafford. Toda atenção para um dos maiores clássicos do planeta.

A multidão chega aos poucos. Solitários berros de incentivo dão gradativamente lugar à um coro ensurdecedor. Torcedores do Manchester riem à toa. Seu time joga o futebol mais consistente da Europa e tem o favorito à melhor jogador da temporada. O português é versado nos gritos de guerra, na onda que eles chamam de Ronaldo Fever.

Sem ingresso, assisto ao jogo num pub abarrotado de Red Devils. O único que apóia o Arsenal é um senhor com seus 70 anos, acompanhado pela esposa. Torce discretamente, pra não dar na vista dos rivais. No intervalo, ouso perguntar por que ele foi torcer num bar onde só estavam torcedores do Manchester. "Assisto todas as partidas do Arsenal nesse bar. Hoje não ia ser diferente. Esses meninos têm que me respeitar, pois eu já vi mais futebol do que todos eles juntos", conclui sorrindo.  

Arsenal na frente na casa do adversário. Só o velhinho está feliz, mas nem pode vibrar tanto. Pênalti para o Manchester, Cristiano Ronaldo na bola. Gol. O juiz manda repetir e um copo de cerveja vai ao chão. Segunda cobrança. Gol. Muita cerveja vai pro ar.

O torcedores ensaiam um tímido canto dentro do pub. Ronaldo joga pra torcida no Old Trafford e os ingleses vão à loucura fora do estádio. Virada dos Red Devils e o pub é uma festa completa. Rodada de cerveja pra todo mundo. O título é cada vez mais palpável.

Fim de jogo, tenho que me mover de volta pra Londres. No balcão, uma última cerveja pra rever os gols e sentir a atmosfera de felicidade. Martin comanda aquele pub há 30 anos. Ninguém teria mais credibilidade para concluir essa história. Dentre outras coisas, pergunto se é sempre daquele jeito em dia de jogo. Usando uma pequena toalha preta com o escudo do Manchester bordado, o senhor de pele rosada enxuga a testa: Você veio do Brasil até aqui para ver isso, diz o inglês de olhos esbugalhados. É domingo de futebol e vale o título - prossegue Martin, após tossir forte e respirar fundo - imaginava que poderia ser diferente?

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Posted by Xumiuchoa | Comments (0)